domingo, 5 de novembro de 2017

O Urban. O Urban Beach



Acho que, inicialmente, aquilo que me serviu de motivação para escrever o que quer que fosse que não houvesse sido já referido, teve que ver com o seguinte: saio à noite há cerca de 20 anos e quase sempre sem tocar em álcool. Mas mais que partilhar qualquer "maratona de sobriedade pela noite lisboeta", acho que falta dizer meia dúzia de coisas.

Sobre as acusações de racismo
Quase todos os artigos que li sobre o tema parecem ter sido escritos por pessoas que nunca saíram à noite. A gestão de clientes levada a cabo à entrada de bares e discotecas (em Portugal e um pouco por esse mundo fora) é feita segundo critérios de "selecção" que, chamemos-lhe aquilo que lhes preferirmos chamar, não passa de um termo socialmente aceite para aquilo que outros apelidariam de "discriminação". Mas sejamos francos: quando nos deslocamos a um dado espaço esperamos encontrar um dado ambiente que é definido, mais que por qualquer outra coisa, pela aparência daqueles que lá estão. Fica complicado levar demasiado a sério acusações de discriminação quando quase todos aceitámos e promovemos, na medida do nosso próprio sucesso à porta duma discoteca, que cada lugar estabelecesse um ideal-tipo de clientela baseado estritamente na sua aparência. Não posso afirmar categoricamente que a gerência do Urban Beach é muito ou pouco racista e arrisco a dizer que, em 2017, e até ao seu encerramento, era possível encontrar mais “não brancos” no Urban do que aqueles que poderia encontrar em 2007 no Kubo ou em 1997 na Kapital. Por um motivo relativamente óbvio: o Portugal de 2017 é, ainda assim, um lugar menos racista do que era em 2007, e ainda menos que em 1997. O Observador (que, justiça lhe seja feita, teve um papel importante em todo este processo) publicou um artigo cujo título brilhava com a citação de um antigo porteiro do Urban Beach: “Pretos, é difícil. Ciganos não entram”. Infelizmente, isso não é motivo suficiente para me sentir no direito de acusar a gerência do Grupo K de ser, com maior ou menor incidência, aquilo que a maioria da população nacional é: um tanto ou quanto racista. Porque qualquer coisa parecida com “pretos não sei, ciganos nem pensar” é bastante representativo do que tantos portugueses sentem relativamente àqueles a quem permitem entrar em sua casa ou conviver com os seus filhos. Em caso de dúvida sugiro a consulta do termo "cigano" no nosso dicionário para moderarmos todos a autoridade moral com que chamamos racista a alguém. Dito isto... A selecção levada a cabo à porta do Urban agrada a quem lá vai. E ao que parece, vai lá muita gente. Menos de 48 horas depois do vídeo que exibia aquelas agressões brutais ter sido gravado e pouco mais de 24h depois de ter sido partilhado um pouco por todo o lado... quantas pessoas estavam no Urban Beach no momento em que foi encerrado pelas autoridades?

Sobre a conduta dos seguranças
Uma vez no Lux um segurança disse-me o seguinte: “na minha vida pessoal não repito as coisas quatro vezes, aqui pagam-me para dizer as coisas quatro vezes à mesma pessoa”. Esta observação diz muito sobre a forma como somos tratados num dado estabelecimento e sobre os motivos pelos quais esse tratamento é mais frio, caloroso, inflexível ou tolerante. Ela vai ao encontro de algo muito fácil de se entender: a forma como os seguranças de uma discoteca (ou se fizerem muita questão... a forma como os funcionários de uma empresa de segurança contratada por uma dada discoteca) se dirigem aos clientes dessa mesma discoteca é definida, como é óbvio, pela própria discoteca. Todos sabemos que o álcool, rivalidades parvas, disputas amorosas e outras tantas coisas podem fazer duma pista de dança um lugar tenso. Sabemos também que a maior parte de nós é menos civilizado e paciente depois de beber quatro vodkas ou sete cervejas. E que os seguranças das discotecas (ou se continuarem a fazer questão... das empresas de segurança que trabalham nas discotecas) lidam diariamente com clientes complicados. Por essas e por outras é que existe uma certificação para o exercício das suas funções. Mas sejamos muito claros: o argumento de que a agressividade dos seguranças que estão ao serviço no Urban Beach é responsabilidade da PSG é absolutamente delirante. A administração do Grupo K tem, como qualquer outra agremiação, uma dada cultura organizacional. Dizer que as opções que dela resultam não se traduzem na escolha dos seguranças que lá exercem funções, na mensagem que lhes é transmitida e no tipo de interacção que estes homens promovem com a sua clientela, é a mais profunda manifestação de desonestidade intelectual.

Sobre a Kapital
Não há outra forma de pôr as coisas. A Kapital foi, durante quase 10 anos, o sítio mais aspiracional da noite lisboeta. Ainda me lembro da primeira vez que lá entrei. Mas também não me esqueci da primeira vez que, por culpa de um episódio aparentemente irrelevante, me pareceu que algo de errado se passava ali. O porteiro, que teria ido até ao interior da discoteca, descia uma escadaria quase vazia quando empurrou um amigo meu porque, tão simples quanto isto, ele se encontrava na trajectória mais curta da sua descida. Acabei por testemunhar, repetidamente, seguranças a dirigirem-se de forma agressiva aos clientes sem qualquer motivo aparente. Mas sejamos sinceros: não observei nada na Kapital que não tivesse visto em outros estabelecimentos.

Sobre o Kubo
O Kubo era um espaço junto ao Rio, a uma caminhada curta do local onde se encontra hoje o Urban Beach. Basicamente era um conjunto de caixotes justapostos e sobrepostos que, verdade seja dita, pela sua disposição, decoração e iluminação, faziam um dos espaços mais bonitos de Lisboa. Mas foi lá que fiquei com a sensação que as noites passadas em sítios geridos pelo Grupo K podiam ser perigosas. Lembro-me de uma noite ter visto um segurança a empurrar clientes de forma agressiva sem razão aparente. Uma rapariga, provavelmente pouco habituada a ser atropelada no seu dia-a-dia, reclamou com o funcionário da discoteca. Ele recuou até junto dela e intimidou-a com um movimento brusco e uma frase que já não sou capaz de recordar. Claro que quando se vê um segurança dirigir-se a uma mulher desta forma fica-se com a sensação que ali algo de grave pode acontecer a um homem. Num outro dia, quando estava de saída, vi um segurança esmurrar um cliente. Não foi a primeira vez que assisti a um murro à porta de uma discoteca e cabe-me reconhecer que - entre esses episódios infelizes - a culpa não foi sempre da exclusiva responsabilidade das equipas de segurança. Mas acho que, numa dada consciência colectiva, nos habituámos a aceitar estes "azares alheios" com excessiva condescendência.

Sobre o Urban Beach
O Urban Beach acabou por atrair uma clientela mais jovem que os seus antecessores Kapital e Kubo (o Kremlin tinha um posicionamento diferente: a música era mais pesada e o ambiente menos convencional). Isto também se deveu, em boa parte, à afirmação do Lux como discoteca de referência. Curiosamente, uma das coisas que sempre diferenciou o Lux de todas as outras discotecas foi a urbanidade com que, de forma geral, o seu staff trata os clientes. Em rigor, foi talvez a primeira discoteca onde terei sentido que os seguranças estavam ali, verdadeiramente e como o nome sugere, para assegurar a minha segurança (e onde, em 20 anos de visitas assíduas, nunca vi um murro ou um pontapé). Mas voltando ao Urban: tive a percepção que naquele espaço do Grupo K os seguranças pareciam ser ainda mais agressivos que na generalidade das discotecas. Uma noite, a propósito duma abordagem completamente desapropriada de um segurança, disse ao Gonçalo Rocha que achava que ali se maltratavam os clientes indiscriminadamente. Respondeu-me, meio sorridente, que talvez eu tivesse preconceitos em relação ao Urban. Torna-se difícil, alguns anos depois, recordar com precisão os episódios ou comportamentos mais duvidosos. Não tinha chegado a ver ninguém do staff desferir murros ou pontapés mas, por culpa de algumas reacções, e de uma ou outra narrativa, sentia que seria apenas uma questão de tempo. Até que uma noite, o tempo chegou. A narração que se segue é um excerto exacto (inclusive, com alguns erros de sintaxe) de um e-mail que enviei, na madrugada do dia 6 de Abril de 2015, à então Vereadora da Educação, Economia, Inovação e Descentralização, Graça Fonseca (actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa), a propósito de uma deslocação até ao Urban Beach, no fim-de-semana anterior. Muito mais que qualquer recriminação da ex-autarca por qualquer hipotética inação (que não teria como provar e, como tal, não me permito sequer sugerir) este é um esforço por me reportar aos factos na forma mais exacta que me é possível. Sem a leitura deste e-mail, guardaria daquela noite pouco mais que recordações vagas. Posso assegurar-vos apenas que, à data que escrevi este relato, os factos estavam absolutamente claros na minha memória. Desde aí, nunca mais voltei a um espaço do Grupo K.

(...) Quando chegava à entrada (ainda numa zona exterior ao recinto mas pertencente já, por assim dizer à área do edifício) estavam duas ou três pessoas (acho que eram dois homens e uma mulher) a ser expulsos/convidados a sair. Percebi que um dos tipos que estava a ser posto fora estava bebido e parecia provocar os seguranças (aquela coisa adolescente do "bate lá então"). 

Aparentemente os seguranças não ficaram contentes com o desempenho das suas funções (convidando a sair alguém que supostamente não mereceria ter entrado ou permanecer lá dentro) e foram ao encontro do tipo (uns 4 ou 5 diria eu). Vi um dos seguranças pontapear o turista na cabeça - acho que houve dois deles que lhe bateram - e poucos momentos depois estava um segurança deitado sobre o turista a asfixiá-lo (sim... isso mesmo.. a asfixiá-lo). Eu eu outro amigo - vendo aquela barbárie - aproximámos-nos e dissemos aquilo que qualquer duas pessoas com o mais elementar bom senso deveriam sentar-se tentadas a dizer. Perante os "parem com isso por favor", "não é necessário", "deixem-no ir" ou "a vossa função é precisamente evitar situações como esta" o meu amigo foi insultado e foi ainda ameaçado porque, aparentemente, algum(ns) segurança(s) pensavam que havia filmado a cena. Frases do género "vê a minha cara que eu não me esqueço da tua porque se o vídeo é publicado vais-me ver outra vez", houve ainda outro segurança que lhe pediu o telemóvel para se certificar que nada tinha sido filmado. Tudo isto num ambiente de raiva perante esta nossa atitude de censura daquele comportamento (...)

A preocupação dos seguranças com um vídeo não era fruto da sua capacidade de antecipar o que veio a acontecer dois anos e meio depois. Era apenas uma reacção ao que havia sido publicado duas semanas antes pelo Público: as imagens mostravam um segurança em funções a espancar repetidamente (a dada altura com a colaboração de um outro indivíduo) um homem, aparentemente bêbado e indefeso, na Rua Cor-de-Rosa, no Cais Sodré. Naquela noite houve duas coisas que se tornaram claras. A primeira: que os seguranças do Urban Beach não tinham qualquer problema em aplicar a força extrema quando qualquer dose de força não era já necessária (assumindo que em algum momento, algum tipo de força tivesse sido justificada). E isto não é uma consideração subjectiva. Estamos a falar dum turista, claramente alcoolizado, de passada titubeante, que o casal amigo estava a conseguir afastar da porta do Urban. A segunda: ainda mais assustadora. O total sentimento de impunidade dos agressores. Aqueles homens agiram sem contenção, hesitação ou reflexão. Aqueles homens, claramente treinados, actuaram em grupo contra um indivíduo que parte da população masculina teria facilidade em derrubar sem a ajuda de outra pessoa. A impunidade foi tal que, à semelhança das imagens que tivemos o desprazer de ver esta semana, aqueles homens bateram e insultaram diante de uma plateia, no (suposto) exercício das suas funções. Havia dezenas de pessoas a assistir. Apenas um amigo e eu nos insurgimos. Ninguém na fila, em pleno ano de 2015 e nesta tão cosmopolita Lisboa, perdeu vontade de entrar na discoteca cujos seguranças acabavam de agredir de forma devastadora, um homem, bêbado e trémulo, pontapeado e atirado ao chão, prostrado física e psicologicamente, desrespeitado na sua mais elementar dignidade, vítima duma asfixia desnecessária e absolutamente bárbara. Naquele noite fui para casa com a sensação que, ao contrário do que disse ontem o advogado de um dos seguranças a propósito daquele vídeo  [e passo a citar com total exactidão, (...) Foi um dia mau... foi um dia mau p'ro meu cliente. Um dia mau na vida dele. Apenas isso (...)], havia testemunhado apenas "mais uma noite na vida daqueles homens". É por isso que quando leio todos os depoimentos disponíveis na internet não só os acho coerentes, como bastante verosímeis. É também por isso que acho que o Eduardo Cabrita, o recém-nomeado Ministro da Administração Interna (que, sou obrigado a reconhecer, não poderia ter actuado de forma mais imediata; o mesmo não se podendo dizer da autarquia e da forças policiais), deveria ter algum pudor em dizer que “não faz sentido sequer colocar essa questão” quando lhe perguntam porque nada havia sido feito depois das (38) queixas existentes. Talvez se fosse um filho, sobrinho ou neto seu a apanhar pontapés na cabeça o ministro tivesse expressado uma opinião diferente. Talvez se os agentes da PSP não parecessem desincentivar (como sugerem alguns depoimentos à imprensa) os jovens agredidos a apresentar queixa, elas não fossem “apenas” 38. Talvez se a queixa referente ao episódio retratado no vídeo, houvesse sido registada antes que tivéssemos podido aceder às imagens, nos sentíssemos todos em melhores mãos. Talvez a gerência do Urban Beach e a administração do Grupo K tenham alguma responsabilidade nestes sucessivos espancamentos. E talvez o Gonçalo Rocha tenha razão, talvez eu tenha alguns preconceitos acerca do Urban. Mas não consigo deixar de pensar que... O único motivo que permite ao Urban Beach continuar a fazer dinheiro com as mesmas pessoas que parece disposto a maltratar, é a falta de solidariedade e consciência cívica de todos aqueles que, não tendo levado nunca pontapés na cara, continuam a ir ali sabendo que, naquela mesma noite e naquele mesmo lugar, é possível que uma cara com a qual se cruzem apanhe os ditos pontapés. A violência extrema que descobrimos naquelas imagens, não é explicada por um acesso de raiva único e irreproduzível. É a expressão de quem parece habituado a resolver os problemas à sua maneira. A falta de pudor com que se bate em público, é um esboço daquilo que se é capaz de fazer em privado. O sentimento de impunidade que aqueles homens exibem, sugere um historial pelo qual ninguém lhes terá exigido contas. Serve apenas de consolo a lição de que apresentar queixa não é afinal uma tareda inútil. Ou acham mesmo que a divulgação isolada daquele vídeo, por mais selvagens que fossem os actos nele reproduzidos, teria conduzido ao encerramento do Urban Beach?

Obrigado a todos aqueles que, revelando coragem e responsabilidade cívica, apresentaram queixa. Há quem não tenha sequer a dignidade de, perante um espancamento completamente bárbaro e desnecessário, abandonar a fila e escolher outro sítio para dançar

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Incêndios 2.0



Lembram-se o que jornalistas e colunistas de todo o mundo ocidental, escreveram vezes sem conta, depois da vitória de Donald Trump? Que aqueles votos vinham da América profunda e que o grosso dos eleitores das grandes metrópoles jamais teria votado nele? Ninguém o disse categoricamente mas não consegui imaginar outro entendimento que não este: a opinião da população urbana importa mais que a da rural. Será que a vida de quem está na capital também vale mais que a de quem habita o interior? Ou por outra, será que estamos genuinamente preocupados com cada uma das vítimas dos incêndios? Ou sentimos apenas que 40 mais 60 são 100 e que – foda-se... – 100 é um número demasiado grande para olhar para o outro lado? As vítimas (mortos, feridos, desalojados, traumatizados) de Figueiró a Santa Comba têm pouca ou nenhuma voz. Não foram as mortes mas os números totais que elas perfizeram que tocaram o coração do país, geraram as ondas de solidariedade e cativaram os media. Porque estas pessoas – as que morreram agora, as que morreram em Verões passados e aquelas que vão morrer nos próximos anos – são quase sempre as mesmas: bombeiros e velhotes. Reportagens em Pedrógão mostram-nos idosos chorosos, às vezes ranhosos, desprovidos de capacidade de mobilização, destreza verbal ou telegenia. Será que sentimos realmente por eles? Será que sentimos por aqueles que, mais ou menos velhos, morreram em casa, nos carros, na rua, asfixiados e queimados? E por todos aqueles a quem, sobrevivendo, só restou chorar por quem já não puderam abraçar? À excepção do impacto brutal que uma centena de vítimas tem sobre todos, cada uma daquelas mortes pouco importa. Não geram por si mesmo dislikes, partilhas e notícias em escala que ponham um governo ou uma opinião pública em sentido. Onde é que está o Estado Social? No Facebook? E o nosso coração? A nossa formação, educação e cultura? No meu liceu havia dois bombeiros. Dois miúdos que costumavam ir fardados para a escola porque faziam parte do Regimento de Voluntários que havia ali ao lado. A farda não lhes granjeava reputação ou miúdas giras. Eram, na verdade... menos-cool-que-os-demais. Até Agosto de 2013, quando morreram 8 bombeiros em Agosto e foram aclamados heróis nacionais, o país inteiro parecia também... dar-lhes menos valor que aos demais.

Tinha cagado no Orçamento, no Sócrates e na Catalunha. Mas também eu fui sensível... aos números. Se os actores políticos (independentemente da sua cor) trabalhassem em função de outra coisa que não votos, talvez António Costa tivesse dito (e sentido o que disse) “depois deste ano nada pode ficar como dantes” em 2005 quando, Ministro (de Estado e) da Administração Interna, se registaram mais de 8.000 incêndios florestais, quase 350.000 hectares ardidos e 16 mortos (12 dos quais bombeiros). Mas se calhar nenhum de nós lhe exigiu isso. Se calhar nenhum de nós se esforçou, como aparentemente se estão a esforçar na Galiza, para lhe exigir isso mesmo

domingo, 6 de agosto de 2017

domingo, 21 de maio de 2017